domingo, 20 de junho de 2010

~* Conto: A Dama de Ouro - Parte I

Finalmente, estavam a caminho. Aquela era a excursão mais esperada do ano e o ônibus seguia pela estrada embalado pelo ritmo animado da música – um tanto desafinada na voz dos alunos, mas mesmo assim, alegre.
- Moro... Num país tropical... abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza! Em fevereiro... Em fevereiro tem carnaval...
Fernanda estava longe daquela cantoria. Apreciava a paisagem, absorta em seus pensamentos. De vez em quando fazia algumas anotações em seu caderno de poemas, descrevendo tudo o que via de interessante pelo caminho e associava pensamentos às descrições. Ela era assim. Gostava de inventar poemas, misturar situações do dia com histórias inventadas, era cheia de idéias e gostava de refletir sobre a vida. Não gostava de barulho, por isso procurava ficar longe daquela bagunça que seus amigos estavam aprontando. Mas também não reclamava, apenas fechava-se em seu mundinho de poesia e não incomodava ninguém. O problema era que os outros a incomodavam...
- Fernanda! Para de ser tão CDF. Só fica fazendo essas anotações aí! – Dizia Camila, vizinha de assento de Fernanda. Camila, ao contrário da Fê, adorava uma gritaria, uma festa, uma bagunça. As duas eram muito diferentes, mas eram amigas. Dentro das suas diferenças elas se completavam. – Vem cantar com a gente!
Fernanda deu uma olhada no grupo que ria, que cantava, que aprontava, que fazia bagunça, e fez cara de ‘péssima ideia’.
- Er... Eu acho que prefiro observar as nuvens.
- Ah, mas não vai mesmo! – Fernanda foi literalmente arrastada pelos cabelos por Camila e as duas se juntaram ao resto do grupo.
Algumas horas se passaram até que o ônibus chegasse ao seu destino: União dos Palmares – AL.
Os alunos estavam em União pra visitar o Parque Memorial Do Quilombo de Palmares, para que aprendessem sobre o Quilombo e elaborassem um trabalho de História. Mas muitos dos alunos viam esse passeio como uma brincadeira, uma diversão em grupo. Estavam planejando uma festinha no quarto de alguém aquela noite no hotel em que iam ficar. A festa começaria às dez horas da noite e, se tivessem sorte, terminaria às cinco da manhã. É, aquele ia ser um passeio e tanto...
Fernanda fora convidada por Camila, que estava metida na organização da festinha, mas só a ideia de que podia ser pega pela coordenadora da excursão, que faria uma ronda nos quartos a meia noite já a assustava. Fora que era total falta de respeito com os reais objetivos da excursão. Não adiantava Camila insistir, ela não iria nem que o gato morto cantasse.
Chegando a União, o ônibus dirigiu-se ao hotel para que os alunos deixassem suas malas e almoçassem, pois logo mais, iriam partir para o Quilombo. Na mesa do almoço, Fernanda, Camila, Pedro e Tiago conversavam:
- Eu estou louca para conhecer o Parque, dizem que é muito interessante...! – Declarou Camila.
- Tá maluca é? – disse Pedro parando para engolir o arroz com feijão que havia ingerido. – Isso vai ser a maior chatice! Estou até pensando em ficar no hotel.
- E temos essa opção? – Interveio Tiago.
- Não, mas quem sabe eu não dou um jeito de me esconder até o ônibus partir.
- Ai, meu Deus, Pedro. É obvio que isso não ia dar certo, né, seu cabeça-oca! A coordenadora faz chamada antes de o ônibus ir, é capaz de matá-la do coração se você não estiver presente...
- Olha, que matá-la do coração não é uma má ideia... – Pedro disse quase sussurrando, pois nesse exato momento a coordenadora rabugenta passava bem ao lado da mesa.
- Como você é cruel, Pedro! – Disse Camila sarcasticamente e todos caíram na risada.
Saíram do hotel às três da tarde em direção ao Parque Memorial do Quilombo de Palmares. Subiram a Serra da Barriga e enfim chegaram.
- Começou a chatice... – Pedro deixou escapar o comentário para que só os seus amigos ouvissem.
Os guias começaram a apresentar o quilombo, sua história, e cada canto, cada pedacinho de terra. Camila, Fernanda e Tiago achavam tudo muito interessante, menos Pedro que continuava com a teimosia de que aquilo era perda de tempo. Deu cinco horas da tarde, começava a escurecer.
- Pois é pessoal, – dizia o guia da excursão – chegamos ao final do nosso passeio, mas eu guardei o melhor para o final. – atrás dele tinha uma ladeira enorme de barro, com algumas curvas e cheia de pedrinhas que se alguém escorregasse tinha duas opções: ou morria ou se estatelava todinho e quebrava todos os ossos, sem falar na pele em carne viva.
- Ah, que legal! Uma ladeira da morte! – Gritou Pedro lá de trás, todos deram risadinhas abafadas, até o próprio guia, mas Pedro logo foi repreendido por um dos professores que nos acompanhava na excursão.
- Não, não... A surpresa está lá embaixo. Descendo a ladeira vamos visitar o que é, na minha opinião, um dos lugares mais bonitos e misteriosos de todo o quilombo. Chamamos de Espaço Aqualtune. É chamado assim porque... – e começou a explicar sobre o espaço enquanto todos desciam.
O guia falava todo animado. Enquanto passavam, alguns quilombolas que moravam em casinhas rústicas espalhadas pelo quilombo ficavam olhando lá de cima do morro, encarando os que desciam. Fernanda notou todos aqueles olhares. Eles não pareciam amigáveis, alguns eram preocupados, outros eram raivosos. Seria para o grupo todos aqueles olhares? Será que eles estavam fazendo algo de errado? O que será que tinha lá embaixo que parecia tão proibido?

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